Fogo amigo cerca os bastidores da política de Quissamã

Luiz Costa

A pacata cidade de Quissamã, no Norte Fluminense, vive dias agitados, com muito burburinho e especulações. Isso não se deve apenas aos números da Covid-19, que assustam e geram angústia na comunidade. No município, um outro vírus cerca os bastidores do poder: o da desconfiança. Essa semana, a exoneração do subsecretário de Governo, Jorge Luiz das Chagas, o Cachuca, trouxe à tona uma situação incômoda para os gestores, mas que pode ajudar a compreender o perfil do grupo heterogêneo que está comandando a cidade, e tem no fogo amigo uma de suas principais características, com chamas cada vez mais altas.

A exoneração de Cachuca foi publicada, na noite de quarta-feira (14), em edição extra do Diário Oficial. O detalhe é que o sub respondia pela secretaria, em virtude das férias do titular da pasta, o vice-prefeito Marcelo Batista. Naquele mesmo dia, um oficial de justiça esteve na Câmara para citar os vereadores Fabinho Mecânico e Mazinho Batista, eleitos ano passado pelo Republicanos, em uma ação movida desde o início do ano. Apenas Fabinho foi encontrado. Mas o que esses fatos têm em comum?

Este episódio ocorrido na sede do Legislativo fez com que Cachuca fosse sumariamente afastado do primeiro escalão. Apesar de ocupar o cargo de confiança desde o início da segunda gestão da prefeita Fátima Pacheco (DEM), Cachuca, suplente de vereador, também do DEM, é autor de uma Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME), distribuída em 2 de janeiro de 2021, que pede a anulação dos votos obtidos pelo Republicanos, pois uma candidata da chapa não obteve votos e, segundo a ação movida, a mesma seria “laranja” para driblar a cota de 30% de candidaturas para mulheres, estabelecida pela lei eleitoral.

Caso seu pedido seja atendido pela justiça, após o trânsito em julgado, com recontagem e nova distribuição proporcional dos votos, Chacuca herdaria uma cadeira na Câmara, com a outra sendo ocupada por um representante do MDB, no caso o ex-vereador Xande Moreno.

Um advogado ouvido pelo Portal Coneqtados, atento observador da cena política local, considera prematura qualquer previsão a respeito do caso, que tramita em segredo de justiça. “É um processo longo, que precisará ouvir todos os candidatos do Republicanos, não apenas os eleitos no pleito de novembro do ano passado. Há ainda testemunhas e provas documentais que serão apresentadas, na tentativa de esclarecer os fatos. O Tribunal Eleitoral tem olhado atentamente para essa questão, fazendo o julgamento de acordo com a prova cabal apresentada aos autos”, ponderou.

A movimentação de Cachuca provocou uma situação, no mínimo, desconfortável para o governo. Ele tinha como superior imediato o vice-prefeito Marcelo Batista, irmão de Mazinho, um dos vereadores eleitos pelo Republicanos. Na quinta-feira (15), a principal indagação na sede do Executivo era se “mais alguém do seleto grupo de assessores de confiança da prefeita teria conhecimento da ação judicial do suplente do DEM”. Bom ressaltar que Cachuca não foi uma indicação de Marcelo para a subsecretaria, e sim de Fátima Pacheco.

Em meio a onda de boatos que tomou as ruas, alguns “especialistas/cientistas políticos locais”, encontrados em grande número na cidade, davam como certa a ida da vereadora Simone Flores (DEM) para a secretaria de Saúde, abrindo vaga para Cachuca na Câmara, algo que, em virtude do questionamento já em andamento na justiça, parece não ser a solução ideal para o impasse. O vereador Mazinho Batista recebeu a citação na sexta-feira (16).

Desgaste com disputa na Câmara

Esse não é o primeiro desconforto, esse ano, envolvendo aliados do governo. Em janeiro, logo após a posse, a disputa pela presidência da Câmara Municipal dividiu a situação. Marcinho Pessanha, Leone Cordeiro e Cássio Reis, vereadores eleitos pelo MDB, venceram a disputa pela Mesa Diretora, tendo Marcinho como presidente e Adeilson Lopinho (PP) como vice, contando com apoio de Alexandra Moreira e Rildo Barcelos, do PSC.

Do outro lado, estavam Fabinho Mecânico, Ailson Barreto, Janderson Chagas, Simone Flores e Mazinho Batista. Apesar da independência dos poderes, o resultado foi contabilizado como derrota da prefeita, em função de articulações, sem sucesso, na tentativa de impedir o triunfo de Marcinho.

Origem do ‘fogo amigo’

A expressão é utilizada em guerras quando algum ataque ou bombardeio atinge as próprias tropas ou tropas aliadas, normalmente por erro de cálculo ou de interpretação. Para alguns estrategistas militares, acertar um aliado tornou-se aceitável se o objetivo for desgastar ou atingir um adversário. Também é utilizada para definir atitudes de traição. Na política, a prática, normalmente, atinge amigos e inimigos indistintamente.

No próximo sábado (24), uma reportagem especial trará um raio-x do primeiro escalão do governo Fátima Pacheco. Os leitores conhecerão um pouco mais dos secretários e os caminhos que eles percorreram até os dias atuais.

 

Nota da redação

Em um primeiro momento, a intenção era de reproduzir, na reportagem, trechos de discussão registrada na quarta-feira (14), na sede da Prefeitura, entre protagonistas da ação, bem como trechos gravações de participantes em reuniões obscuras, em data pretérita, para tratar do ajuizamento da referida ação. Como o material foi obtido sem amparo legal, em nome do bom jornalismo e da ética optamos pelo seu não aproveitamento. Fica a sugestão para que haja mais zelo em futuros encontros dessa natureza para evitar que conversas fidedignas sejam vazadas indevidamente.

 

 

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